terça-feira, 14 de julho de 2009

Invisiveis


Haviam carros de mais na garagem, conquanto naquela manha resolveu ir para o trabalho andando, afinal não ficava muito longe. Passou a mão nos longos cabelos negros e causou as sandálias de salto, ao descer de seu quarto que ficava no segundo andar do casarão entrou no cômodo subseguente, despediu-se da mãe com um beijo carinhoso e saiu, batendo a porta.
Aquela manhã dispunha de uma atmosfera diferente, o sol estava ameno e o vento deixava o clima ainda mais agradável. Sua rua era margeada por arvores dos dois lados, intercaladas com belos canteiros floridos. Saindo do bairro nobre e aproximando-se da empresa - que ficava proxima ao centro - o ambiente ia mudando: os barulhos automotivos ficavam mais evidentes, as pessoas passavam por ela e umas pelas outras sem se notar, já estressadas e apressadas aquela hora da manhã.
Alegre, ia caminhando com fones no ouvido, quando passou por um bar localizado à esquina, ainda estava fechado e no chão duas pessoas vestidas em trapos chamaram sua atenção, sustou por um instante a observá-los, parecia um casal, dormiam abraçados, como se buscassem nos braços um do outro o que não aviam encontrado nunca em lugar algum; sujos e desacreditados, mesmo dormindo seus semblantes eram de pesar, os corpos lívidos e estóicos. Vagarosamente foi recuperando os movimentos e voltara a andar; no momento em que tinha os olhos cravados naquela imagem, pensamentos mil rondavam-lhe o cérebro, o coração batia acelerado e quase podia sentir o sangue correr em suas veias. Atravessou a rua compungida, indagando-se, ha quanto tempo não via a realidade que a cercava; como aquilo a incomodava. Recobrou os pensamentos revolucionários de sua adolescência, os ideais utópicos de vida que alimentara nessa fase e que abandonara com o passar dos anos. Pensou o que Jesus faria se visse aquela cena, Se ao invés dela, quem estivesse passando naquele momento fosse Jesus, o que ele faria? – não querendo comparar-se, mas intencionando agir de maneira a ajudar de alguma forma aqueles seres invisíveis- que carregados de matéria ocupavam o chão nú de um boteco qualquer, com o pensamento criastão, originado pela criação ortodoxa que recebera, deduziu que certamente Jesus equânime, suscitaria peixes e pão para matar a fome daqueles infelizes, colocaria a mão em suas testas e estariam curados de qualquer escoria que lhes acercasse; mas certamente ela não era capais de obrar milagres e por isso continuou andando. Passos a frente, talvez iluminada por ele(Jesus) concluiu que ums sanduíches certamente dariam conta de acalmar o estomago daquele casal, ainda que não tivessem o sabor do alimento milagrosamente provido pelo mestre. Seguiu para o supermercado, precisava ser rápida pois eles podiam simplesmente acordar e ir embora. Comprou pão, presunto, queijo e achocolatado. Voltava rezando na intenção de que continuassem dormindo até ela colocar a comida ao lado deles e ir embora; não queria ser vista, e o motivo estava entre o medo e o respeito. Andando rapidamente com a sacola na mão, atravessou a rua e quando chegou a frente do bar... eles já não estavam mais. Sentiu-se esboroar. Mas porque eles não esperaram? perguntava, indignada, a si mesma. Após alguns minutos parada no meio dos transeuntes compreendeu: iam esperar pelo que? Por quem? Esperar até o dono do estabelecimento chegar e chutá-los dali? Pessoas como eles só tornam-se reais quando nos incomodam, nos atormentam ou nos machucam, e o tempo em que Jesus presenteava os fracos e oprimidos havia passado. Foram embora, e ela não podia imaginar para onde. A jovem seguiu seu caminho, com os olhos arrastando no chão e a mente na mais alta das montanhas.

Juliana Melo

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